sexta-feira, novembro 21, 2003

Aqui vai mais um "crime exemplar" para toda a gente que adora ir ao cinema e não suporta as pessoas que não param de falar durante o filme, que lêem as legendas em voz alta, que adormecem e ressonam mais alto do que o próprio filme e que comem pipocas como ruminantes e sorvem as bebidas como aspiradores...

"Gosto imenso de cinema. Chego sempre à hora exacta em que começa a sessão. Sento-me, instalo-me, concentro-me e tento não perder uma palavra, primeiro porque paguei o preço do bilhete, e depois porque gosto de me instruir. Não gosto que me incomodem e por isso procuro sempre sentar-me no meio da fila, para não ter ninguém a passar à minha frente. Não suporto que me falem. Não suporto! O tal casal passava de um para o outro o noticiário universal, sussurrando. Discretamente, mostrava o meu descontentamento. Ainda se calaram mais ou menos durante o desenho animado, que era mau e que ainda por cima eu já vira. Recomeçaram a falar durante o documentário. Enfureci-me e calaram-se durante meio minuto, mas quando o filme começou não o consegui suportar mais tempo. Tinha a certeza de contar com a simpatia dos que estavam sentados à nossa volta. Pus-me a assobiar. Então caíram-me em cima. Era uma flagrante injustiça. Voltei-me para os palradores e gritei:
- Vão calar-se ou não?
Então o homem respondeu-me com uma grosseria. A mim! Saquei da naifa. Para ele e para os outros, para os ensinar a estar calados."
"Crimes exemplares", Max Aub.

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